Couverture de Music-hall

Music-hall

de Jean-Luc Lagarce

Texte original : Music-hall traduit par Alexandra Moreira da Silva

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A RAPARIGA. – A Rapariga vinha assim, lá do fundo,
ali,

entrava,

andava lentamente,

do fundo do palco em direcção ao público,

e sentava-se.

Às vezes, aconteceu várias vezes, às vezes,

porque não era possível entrar pelo fundo, ou porque o palco não era suficientemente profundo

ou ainda outras vezes, porque a luz tinha sido afinada de outra forma,

a Rapariga, então,

criou-se este hábito para fazer face a este tipo de incidentes,

a Rapariga entrava pelo lado ao fundo do palco e então, com bastante habilidade devo dizer, fazia um ligeiro meio círculo e atingia a linha central para avançar,

« como se nada fosse »,

em direcção ao público,

e se sentar, no mesmo sítio, da mesma forma, lenta e desenvolta.

Às vezes ainda, uma ou duas vezes,

e ainda há um ano,

às vezes ainda, no fundo do palco, não havia nenhuma porta,

e nesses casos extremos,

mas ainda bem que os prevíamos, nunca se sabe,

até porque ainda no ano passado, e outras vezes também,

e em circunstâncias que não o deixariam prever, uma situação como essa podia revelar-se possível,

tinha ficado previsto que a Rapariga,

mas só excepcionalmente,

a Rapariga já estaria ali,

esperava ao fundo, e quando isto começava

- mas é sempre ela que decide quando se começa –

quando isto começava, ela avançava em direcção ao público como se seguisse uma linha contínua e sentava-se,

sempre dessa mesma maneira lenta e desenvolta.

Assim, «como se nada fosse».

Às vezes ainda, uma vez,

duas,

já não sei,

e francamente, seria bom,

é o que eu penso,

às vezes, uma ou duas vezes,

três,

que sejam quatro,

estou a contar, a reflectir e conto,

vá lá, quatro vezes,

às vezes, não só não houve porta,

ou o que quer que fosse, nem ao fundo, nem do lado,

como também

- é aqui que quero chegar –

e é preciso reconhecer que já não é pouco

- quando vi aquilo, até me apetecia chorar, e ainda que essa eventualidade estivesse prevista,

nunca imaginei ter de a utilizar um dia,

recorrer a ela,

por outro lado,

o palco era tão pequeno, à sério, daqui até ali, não era mais do que isto,

que nada permitia andar, muito lentamente, e de uma forma desenvolta, nada,

francamente, tínhamos de o admitir,

- até me apetecia chorar, é verdade, não acreditam em mim, tenho este ar assim, mas até me apetecia chorar –

tão pequeno, sim, que foi preciso que a Rapariga,

era a única solução,

que a Rapariga já estivesse ali, sentada, como quem não quer a coisa, já, sim, já, completamente entalada entre o fundo e o público, tão próximos um do outro.


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