O texto de Jean-Luc Lagarce impõe rigor e simplicidade para a sua representação. A montagem de Últimos Remorsos Antes do Esquecimento pela cia. Os dezequilibrados dá
continuidade a uma linha de pesquisa do grupo - iniciada com o espetáculo “Um quarto de Crime e Castigo”, apresentado no quarto de um apartamento – que tem como foco o trabalho
dos atores e uma relação de intimidade entre a cena e o público. Assim como na peça citada, os principais alicerces desta montagem são os elementos teatrais básicos: texto, ator
e espectador. O despojamento em termos de cenário é uma opção no sentido de procurar criar essa cena voltada para a humanidade da representação.
À primeira vista, o texto parece pertencer à escola realista, mas um olhar mais atento revela uma escrita parcialmente fragmentada, estranha, repleta de silêncios e suspensões,
que, em alguma medida, problematiza a empatia do público com a situação dramática e o diferencia do drama tradicional. A escolha de encenar, em palco brasileiro, a sua tradução
para português de Portugal (por Alexandra Moreira da Silva), se deve à busca de evidenciar as fissuras no modelo realista provocadas por sua intrincada construção dramatúrgica.
De tal modo que o sotaque brasileiro para a palavra portuguesa se configure como um estilo de linguagem que reforça não apenas a estranheza e a fragmentação do texto, mas também
o jogo teatral estabelecido pelo despojamento cenográfico.